Monday, June 26, 2006

Concurso de Escrita Criativa

O n.a.p.e, núcleo de apoio ao estudante, do instituto superior técnico organizou até ao passado dia 23 um curso de escrita criativa cujo primeiro prémio é um vale de compras fnac de 30 € (fantástico).

A premissa de desenvolvimento era a seguinte: Um homem encontra uma máquina fotográfica numa cadeira de uma sala de cinema. Tratava-se de uma nikon F de 1969.

De modo a obrigar o meu eu preguiçoso a tirar umas férias e também porque 30 € de compras na fnac sempre são uns pózinhos, resolvi participar.

Segue-se então o texto que propus a concurso:


Acordei. Ainda com os olhos semicerrados espreguicei-me. Senti frio. Esfreguei os olhos cansados. Senti um cheiro intenso a bafio e a mobília velha. Olhei à minha volta. Estava sozinho na sala de cinema; na tela projectava-se um filme a preto e branco que desconhecia. Não se ouvia nada, aquela sala de cinema estava completamente muda. Na cadeira ao meu lado encontrava-se uma máquina fotográfica. Uma Nikon F de 1969. Reconheci-a imediatamente devido aos meus anos de fotografia quando era rapaz. Estava novinha em folha: brilhante, a lente cristalina e iridescente, radiando um cinzento de coisas cinzentas novas. Peguei na máquina para a devolver no foyer, sopesei-a, tinha um peso sólido, compacto. Já não se fazem máquinas assim, pensei. Na cadeira onde a máquina repousava sobrou uma mancha escura, que desenhava o contorno do aparelho, rodeada por uma camada densa de pó e pequenas ripas de pano vermelho que se separavam da cadeira.
O foyer estava deserto, parecia abandonado: guardanapos sujos, copos de plástico com restos de cerveja e pipocas espalhadas pelo balcão e pelo chão mosqueado de bilhetes de pontas rasgadas. Não vi ninguém. Coloquei a máquina a tiracolo, saí da sala de cinema e pasmei-me.
Esfreguei os olhos, O que se passa?, fechei os olhos e voltei a abri-los, estava a ver tudo a preto e branco. Tinha adormecido no cinema, ainda estava um pouco estremunhado, certamente que é algo passageiro, pensei. Peguei na câmara para tirar uma foto. Ao encostar o olho ao visor tudo ficou confuso na minha mente: estava a ver a cores! Desencostei o olho do visor: estava a ver a preto e branco! Completamente admirado voltei a encostar o olho ao visor. O que se passa? Pensava estar sob algum efeito cromático passageiro e resolvi focar a câmara. Foi então que o mais impensável aconteceu: à medida que rodava o foco da máquina todo o cenário se alterava. O mercedes à minha frente transformou-se em carocha, rodei mais um pouco, transformou-se em carroça, rodei ainda mais um pouco e não encontrei carro nenhum na terra batida. Ajustei ainda mais o foco para a esquerda e senti um calor infernal a toda a minha volta e Lisboa ardia à minha frente através do visor daquela Nikon. Entrei em pânico, girei rapidamente o foco para a direita e tudo se acalmou: à minha frente perfilavam-se pessoas tristes, caminhando cabisbaixas numa comiseração dolente.
Observava este cenário calmamente quando senti uma palmada no ombro esquerdo. Um homem baixo, sério e de ar desconfiado surgiu ao meu lado.Sim? Faça favor de circular. Ignorei-o. Esperou um pouco e repetiu: Faça favor de circular. Respondi-lhe com um palavrão; estava sem paciência e completamente tomado por aquela máquina tão peculiar. Quando dei por mim já estava no chão. Dois homens carrancudos vinham na minha direcção. Amordaçaram-me, vendaram-me e levaram-me.
Acordei numa sala minúscula sentado perante uma secretária. Na outra margem da papelada o homem que me interpelou olhava para mim, fumando um cigarro. Interrogou-me: Nome? Rafael Gonçalves. Nascido a? 3 de Junho de 1973. Riu-se. Ai sim? Gosta muito de tirar fotos, não gosta? Vá à merda. Riu-se novamente, pegou na máquina que estava na secretária e apontou para mim. Olhou. Assustou-se e, tomado de pânico, deixou-a cair ao chão. Partiu-se e fragmentou-se.
Mandou que me levassem e me tratassem da saúde. Trataram pois: espancaram-me e deram-me um tiro na nuca. Morri em pouco tempo, irreconhecível; tal como o pide tinha visto do visor daquela estranha câmara.

3 Comments:

At Tue Jun 27, 09:02:00 AM 2006, Anonymous Very Unucky Guy said...

Engraçado. Só é pena o comportamento pouco consistente da máquina nas últimas linhas. Tirando isso está muito bem. Mas também, provavelmente não era a consistência do comportamento da máquina que se pretendia....
Deu para ganhar o cheque? Ou ainda não se sabe? Em todo o caso, foi uma bela volta ao mote!

 
At Wed Jun 28, 12:30:00 AM 2006, Blogger grassa said...

Esfregão super desengordurante que deixa toda a loiça super brilhante e com um ligeiro perfume a limão! (ou, para os mais pragmáticos, Bravo!)

Diria mais: estou mesmo capaz até de te brindar com duas ou mais onomatopeias a rigor!
Cá vai: clap clap clap clap!
Penso que quatro é número adequado.
Não sou pessoa que goste de exagerar nas onomatopeias.
É que qualquer dia caem no desuso.
E para isso já me bastam as sinestesias.

Continua com o bom trabalho ou, caso não queiras continuar com este, continua com outra coisa agradável como, por exemplo, com sessões de striptease em lares de terceira idade.
É isso mesmo.
Continua com as boas sessões de striptease em lares de terceira idade.

 
At Sun Jul 02, 07:20:00 PM 2006, Blogger Leitão said...

Miguel gostei do texto... não vou racionalizar (como é meu hábito) mas gostei e é isso mesmo!

Quanto ao comentário do Grassa, bem posso contar uma pequena história:
Ainda no outro dia estava a falar com o Daniel, um amigo meu, o Graça conhece, e estava a dizer-lhe qualquer coisa do género:
"Já notas-te que raramente o Grassa tem razão no que diz? Eu sinceramente ignoro a maior parte do que ele diz... TEIMOSO!!"
O meu amigo apenas consentiu em silêncio e comentou qualquer coisa sobre ele ser estranho...

O que é que podemos tirar desta história??

Ignorem o grassa!!

Thanks: Este trabalho foi parcialmente financiado pela GRASSA-CORPORATION sob o contrato TEI-M0-S-0 do dia 30-06-2006

 

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