Tuesday, June 27, 2006

Gin sem Tónica

Uma garrafa de gin
estava a preocupar
o pescador
a garoupa e o rodovalho
não tinham aparecido
pró jantar
que fazer?
telefonou ao ministro
da Pesca e do Trabalho
mas o ministro
estava a trabalhar
na cama
com a mulher
foi então
que a garrafa de gin
sugeriu discretamente
porque não
telefonar ao presidente?
telefonaram
o presidente da nação
estava em acção
na cama
com a mulher
nessa altura
até que enfim
encontraram a solução
o pescador
foi para a cama
com a garrafa de gin

Mário-Henrique Leiria - Contos do Gin-Tonic

Monday, June 26, 2006

Concurso de Escrita Criativa

O n.a.p.e, núcleo de apoio ao estudante, do instituto superior técnico organizou até ao passado dia 23 um curso de escrita criativa cujo primeiro prémio é um vale de compras fnac de 30 € (fantástico).

A premissa de desenvolvimento era a seguinte: Um homem encontra uma máquina fotográfica numa cadeira de uma sala de cinema. Tratava-se de uma nikon F de 1969.

De modo a obrigar o meu eu preguiçoso a tirar umas férias e também porque 30 € de compras na fnac sempre são uns pózinhos, resolvi participar.

Segue-se então o texto que propus a concurso:


Acordei. Ainda com os olhos semicerrados espreguicei-me. Senti frio. Esfreguei os olhos cansados. Senti um cheiro intenso a bafio e a mobília velha. Olhei à minha volta. Estava sozinho na sala de cinema; na tela projectava-se um filme a preto e branco que desconhecia. Não se ouvia nada, aquela sala de cinema estava completamente muda. Na cadeira ao meu lado encontrava-se uma máquina fotográfica. Uma Nikon F de 1969. Reconheci-a imediatamente devido aos meus anos de fotografia quando era rapaz. Estava novinha em folha: brilhante, a lente cristalina e iridescente, radiando um cinzento de coisas cinzentas novas. Peguei na máquina para a devolver no foyer, sopesei-a, tinha um peso sólido, compacto. Já não se fazem máquinas assim, pensei. Na cadeira onde a máquina repousava sobrou uma mancha escura, que desenhava o contorno do aparelho, rodeada por uma camada densa de pó e pequenas ripas de pano vermelho que se separavam da cadeira.
O foyer estava deserto, parecia abandonado: guardanapos sujos, copos de plástico com restos de cerveja e pipocas espalhadas pelo balcão e pelo chão mosqueado de bilhetes de pontas rasgadas. Não vi ninguém. Coloquei a máquina a tiracolo, saí da sala de cinema e pasmei-me.
Esfreguei os olhos, O que se passa?, fechei os olhos e voltei a abri-los, estava a ver tudo a preto e branco. Tinha adormecido no cinema, ainda estava um pouco estremunhado, certamente que é algo passageiro, pensei. Peguei na câmara para tirar uma foto. Ao encostar o olho ao visor tudo ficou confuso na minha mente: estava a ver a cores! Desencostei o olho do visor: estava a ver a preto e branco! Completamente admirado voltei a encostar o olho ao visor. O que se passa? Pensava estar sob algum efeito cromático passageiro e resolvi focar a câmara. Foi então que o mais impensável aconteceu: à medida que rodava o foco da máquina todo o cenário se alterava. O mercedes à minha frente transformou-se em carocha, rodei mais um pouco, transformou-se em carroça, rodei ainda mais um pouco e não encontrei carro nenhum na terra batida. Ajustei ainda mais o foco para a esquerda e senti um calor infernal a toda a minha volta e Lisboa ardia à minha frente através do visor daquela Nikon. Entrei em pânico, girei rapidamente o foco para a direita e tudo se acalmou: à minha frente perfilavam-se pessoas tristes, caminhando cabisbaixas numa comiseração dolente.
Observava este cenário calmamente quando senti uma palmada no ombro esquerdo. Um homem baixo, sério e de ar desconfiado surgiu ao meu lado.Sim? Faça favor de circular. Ignorei-o. Esperou um pouco e repetiu: Faça favor de circular. Respondi-lhe com um palavrão; estava sem paciência e completamente tomado por aquela máquina tão peculiar. Quando dei por mim já estava no chão. Dois homens carrancudos vinham na minha direcção. Amordaçaram-me, vendaram-me e levaram-me.
Acordei numa sala minúscula sentado perante uma secretária. Na outra margem da papelada o homem que me interpelou olhava para mim, fumando um cigarro. Interrogou-me: Nome? Rafael Gonçalves. Nascido a? 3 de Junho de 1973. Riu-se. Ai sim? Gosta muito de tirar fotos, não gosta? Vá à merda. Riu-se novamente, pegou na máquina que estava na secretária e apontou para mim. Olhou. Assustou-se e, tomado de pânico, deixou-a cair ao chão. Partiu-se e fragmentou-se.
Mandou que me levassem e me tratassem da saúde. Trataram pois: espancaram-me e deram-me um tiro na nuca. Morri em pouco tempo, irreconhecível; tal como o pide tinha visto do visor daquela estranha câmara.

Friday, June 23, 2006

Era uma dose de esquizofrenia, se faz favor...

O Vicêncio esteve (alegadamente) na guerra do Ultramar.
Homem vivido, carrancudo e lapidado pelo tempo, acredita que "Portugal é uma sombra do que já foi, e que todos estes camones, pretos e mariconços era tratá-los como ostras: era enfiar-lhes uma pérola no cu e amandá-los pó fundo do mar."
Gosta de ir à caça, beber cerveja, ver futebol e bater na mulher quando o Benfica perde (por esta ordem).


A Ritinha é uma querida.
Moça dada aos beijos e aos abraços e a toda uma palete de outros carinhos, gosta de rabiscar e desenhar, e acredita que o arco-íris é pintado a lápis de cor.
É um poço de ingenuidade num mar de felicidade.


O Marco é homossexual.
E é reprimido.
E é homossexual.
E gosta de iogurte.
Líquido.


A Bianca é transsexual.
Efectuou a última cirurgia há dois meses, sente-se plena pela primeira vez na vida, gosta de pintar os lábios de rosa catatónico (um rosa ainda mais forte do que o choque) e diz que o pai é a mulher que sempre quis ser.
Passa por mulher atraente para homens com dez ou mais dioptrias.


O Cláudio... é o Cláudio.
Gosta de besuntar o corpo com óleo Fula, de fazer marmelada com frascos de geleia (quanta ironia!), de cuspir para o ar e fugir à última da hora (83% de taxa de sucesso) e de se masturbar sempre que vê um carro vermelho.
A prova dada da disfuncionalidade como forma de estar na vida.


O Carlos (nome fictício) é um ex-agente da CIA.
Esteve envolvido na investigação do incidente J.F.K., sob o comando do próprio Cord Meyer.
Aduz ter testemunhado conversações e porfias e ter divisado indícios que em tudo apontavam para que a fatal ocorrência tenha sido cometido não por Lee Harvey Oswald, como todos pensam, mas por alguém de dentro da própria Casa Branca.
Assevera que tudo não passou de uma conspiração governamental, regida pelo Gabinete Executivo e sediada nas próprias fundações do governo Norte-Americano.
Ah, sim. E usa uma camisa de amor próprio e toma os comprimidos sempre às onze da noite em ponto.


O João é informático.
Ponto final.
Parágrafo.
... ...
Eu disse parágrafo.


Obrigado.
Bom, o Ricardo é trabalhador-estudante.
Mais trabalhador do que estudante.
Fomenta o sonho de um dia vir a ser não alguém, mas algo.
Algo de bem específico.
Escritor.
Crê que a verdadeira genialidade no papel já foi atingida, e que como tal essa meta está bem mais longínqua.
Para já, usa a caneta como fábrica de sentimentos.
Escreva o que escrever, se toca as pessoas, é missão cumprida.


Vicêncio, Ritinha, Marco, Bianca, Cláudio, Carlos, João e Ricardo.
O que é que estas "pessoas" têm em comum?
Todas elas habitam dentro de mim.

Sunday, June 18, 2006

escrever Direitos por linhas tortas...

Certas e determinadas coisas encontram-se, actualmente, socialmente viciadas.

Como é o caso do movimento pro-gay.
Neste momento, quem não manifesta uma postura activa na aceitação desse ramo da sexualidade pode correr o risco de ser considerado preconceituoso ou, pior, xenófobo.
Ser neutro nesse campo está out, está fora de questão.
Quanto a esta matéria, afirmo:
"Quero o meu direito à indiferença."

Outro bom exemplo é a globalização do hip-hop.
Nestes tempos que correm, é raro ligar a televisão num qualquer canal de música e não dar de caras com um video clip que é, se não na sua totalidade de natureza hip-hop, então um misto com a fusão de elementos desse género musical.
As grandes marcas já se renderam na publicidade a esta máquina social (atente-se no exemplo da música slogan da TMN), a produção de "novos talentos" irrompeu num boom típico de quantidade vs. qualidade, e as próprias pessoas que ouvem de forma assídua este tipo de música manifestam-no, na sua esmagadora maioria, nas suas roupas, na sua linguagem, na sua postura, no seu comportamento e na sua cultura.
Para onde quer que me vire, é difícil não me encontrar numa posição em que não exista uma sugestão ou uma ínfima alusão ao hip-hop.
E está claro e provado que objectos alvos de produção em massa estão condenados a cair na mediocridade, embora sejam vendidos ao público como algo de inegavelmente bom.
Quanto a isto, alego:
"Quero o meu direito à diversidade."

De uma forma nefasta, incluo também na lista o tabaco, essa praga disfarçada de vício privado.
É já um hábito social a realização das tão famigeradas "pausas para o cigarro".
Um vício degradante tornou-se a desculpa plausível para socializar e conviver um pouco com outras pessoas.
Aposto que se em vez da "pausa para o cigarro" eu convidasse outra pessoa para uma "pausa para leitinho e biscoitos", essa pessoa olharia para mim como se o único fundamento para o que tinha acabado de dizer fosse a gozação.
E porquê? Porque não seria algo já socialmente estabelecido.
Outro reparo: talvez não seja a coisa mais fácil de se perceber, mas alguns dos elementos fumadores do nosso mundo (e, meu Deus, que são tantos!) deveriam tomar nota de que quando puxam de um cigarro e o acendem, a nuvem de fumo a que dão origem não desaparece como que por artes mágicas. E também não se mantém suspensa sobre a pessoa se esta estiver em movimento.
Se em andamento, o fumo irá deixando o seu rasto. À semelhança de um comboio a vapor.
Isso é incómodo para quem circula atrás da pessoa fumadora.
Mas já é tão normal e banal a sucessão de situações dessas que já se tornou socialmente aceite.
Enfim, puxar de um cigarro num café ou numa esplanada já é tão natural como beber um copo de água.
É trivial. E igualmente nocivo. E injusto para a saúde de quem não fuma. Mas é socialmente aceite.
Por isso, proclamo:
"Quero os direitos sobre a minha própria morte."

E a lista continua:
desde status comportamentais a regras de boa etiqueta, desde televisão genérica a marketing via multimédia, desde jet set induzido a fenómenos de popularidade, são inúmeros (demasiados!) os casos de corrupção social que engrossam o leque de factos adulterados que fazem girar o Mundo de uma forma tão descontrolada.
E é com essas falsas morais, demagogias inertes na sua originalidade e bom gosto e códigos de ética desprovidos de bom senso que se vão criando dinâmicas que geram leis nos círculos sociais e que, mais do que lesar a afirmação da individualidade de cada um, restringe o Direito à Liberdade colectiva.